sábado, 10 de outubro de 2026

Solidão!



A SOLIDÃO QUE ABATE NO FIM DE SEMANA

Existe uma solidão que não aparece na segunda-feira. Ela espera o sábado.

Durante a semana estamos distraídos pela função, pelo fazer, pelo barulho necessário que nos sustenta. Quando o ritmo cai, quando o mundo parece ir para a varanda, para o churrasco, para o abraço, sobra um silêncio interno que a rotina abafava.

E é por isso que ela dói mais no fim de semana.

Na luz da psicologia, solidão não é ausência de pessoas. É a experiência da falta. Todos nós somos constituídos por uma falta estrutural — desejamos porque algo sempre escapa. Nos fins de semana, essa falta perde o disfarce do trabalho e se apresenta nua.

Você pode estar rodeado de amigos, rindo, brindando, e ainda assim sentir um vazio que persiste. Porque não é sobre quantidade de gente ao redor. É sobre a impossibilidade de ser totalmente compreendido, totalmente preenchido pelo outro. Freud chamava isso de desamparo. Lacan, de encontro com o real da nossa incompletude.

Estar com amigos e se sentir só não é ingratidão. É a prova de que nenhuma relação, por mais boa que seja, sutura a nossa solidão existencial. O outro pode nos acompanhar, mas não pode nos habitar.

O que fazer com isso?

Não tapar. Escutar.

A solidão de sábado à noite não é um defeito para consertar, é um afeto para interrogar. O que esse vazio está tentando dizer? Que parte sua ficou esperando reconhecimento? Que desejo seu foi adiado para caber no desejo dos outros?

Quando acolhemos a solidão em vez de fugir dela, ela deixa de ser abandono e vira encontro. Encontro com aquilo em nós que ainda não encontrou palavra.

Se esse vazio tem sido frequente, não se culpe por sentir. Procure dar a ele um espaço de fala. É na análise que o vazio deixa de ser um buraco e se torna um lugar.

Sandro César Roberto
Psicanalista

Ser ou. não Ser


SER OU NÃO SER NA ERA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL: A IDENTIDADE POR TRÁS DA IMAGEM

Na luz da Psicanálise

Vivemos em uma época em que a Inteligência Artificial permite criar versões fictícias de nós mesmos: rostos perfeitos, corpos idealizados, aparências rejuvenescidas e personagens que, muitas vezes, parecem mais atraentes do que a pessoa real.

Mas, diante dessa possibilidade, surge uma questão importante: estamos apenas explorando a tecnologia ou estamos tentando esconder algo de nós mesmos?

Sob a perspectiva psicanalítica, a imagem que apresentamos ao mundo pode estar relacionada à maneira como construímos nossa identidade, buscamos reconhecimento e desejamos ser percebidos pelo outro.

Utilizar uma imagem fictícia não significa, necessariamente, ter um problema emocional. Pode ser uma escolha artística, profissional, lúdica ou simplesmente uma forma de experimentar novas possibilidades. A tecnologia oferece liberdade criativa, preservação da privacidade e recursos que ampliam nossas formas de expressão.

Entretanto, é preciso observar o outro lado dessa moeda.

Quando a imagem artificial se torna a única forma pela qual alguém consegue se sentir bonito, desejável ou digno de atenção, vale refletir sobre o que está por trás dessa necessidade. Será apenas uma preferência estética ou existe uma dificuldade em aceitar a própria aparência? Há medo de envelhecer, experiências de rejeição, insegurança ou uma necessidade excessiva de aprovação?

Na Psicanálise, podemos pensar também no conceito de ideal do eu: a imagem de quem gostaríamos de ser, construída a partir de nossos desejos, experiências e referências sociais. O problema não está em desejar melhorar ou experimentar uma versão idealizada de si, mas no sofrimento que pode surgir quando a distância entre o eu real e o eu ideal se torna difícil de suportar.

Em algumas situações, experiências de humilhação, rejeição ou críticas recorrentes podem contribuir para uma relação dolorosa com a própria imagem. Contudo, não é possível afirmar que alguém possui um trauma ou complexo apenas porque utiliza fotografias produzidas por inteligência artificial. É necessário compreender a história, as motivações e os sentimentos de cada pessoa.

A vantagem da imagem fictícia é ampliar as possibilidades de expressão. A desvantagem começa quando ela deixa de ser uma escolha e passa a ser uma condição para que a pessoa consiga se aceitar.

Afinal, existe uma diferença entre brincar com a própria imagem e sentir vergonha de existir sem ela.

Na era digital, podemos construir personagens, modificar rostos e criar realidades visuais extraordinárias. Mas nenhuma tecnologia consegue, por si só, resolver os conflitos internos relacionados à autoestima, à rejeição ou à necessidade de reconhecimento.

A pergunta que fica não é se devemos ou não utilizar a Inteligência Artificial para modificar nossa aparência. A questão é mais profunda: estamos usando a tecnologia para expressar quem somos ou para fugir daquilo que não conseguimos aceitar em nós mesmos?

Porque, no fim, entre o ser e o não ser, talvez o maior desafio continue sendo aprender a existir sem precisar esconder a própria humanidade.

Sandro César Roberto
Psicanalista






#Psicanálise #InteligênciaArtificial #IdentidadeHumana #Autoimagem #Autoconhecimento #Autoestima

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Resiliência Humana

A RESILIÊNCIA HUMANA: QUANDO A DOR SE TRANSFORMA EM FORÇA

Na luz da Psicologia, a resiliência humana é a capacidade de enfrentar situações difíceis, adaptar-se às mudanças e, gradualmente, reconstruir a própria vida diante das adversidades.

Pessoas que passam por tratamentos prolongados, cirurgias, doenças ou longos períodos de recuperação enfrentam muito mais do que desafios físicos. Muitas vezes, precisam lidar com o medo, a ansiedade, a incerteza, a dependência de outras pessoas e a sensação de perda da própria autonomia.

Durante esse processo, a mente também trabalha. Cada pequena conquista, cada passo recuperado e cada dia superado pode fortalecer a percepção de capacidade pessoal. A pessoa começa a reconhecer forças que talvez desconhecesse em si mesma.

Entretanto, superar uma experiência difícil não significa sair dela sem marcas. Algumas pessoas desenvolvem maior empatia, valorizam mais o tempo, tornam-se mais seletivas nas relações e passam a enxergar a vida sob outra perspectiva. Outras podem experimentar insegurança, medo de recaídas, irritabilidade ou dificuldade para retomar a rotina. Essas reações não representam fraqueza, mas podem fazer parte do processo de adaptação.

A Psicologia nos ensina que a resiliência não é simplesmente suportar a dor em silêncio, tampouco significa ser forte o tempo todo. É também reconhecer os próprios limites, aceitar ajuda, expressar sentimentos e compreender que cada pessoa possui seu ritmo de recuperação.

Uma experiência difícil pode transformar a maneira como alguém enxerga a vida, mas essa transformação não acontece automaticamente. Ela depende de fatores como apoio emocional, condições de vida, recursos psicológicos, vínculos afetivos e significado atribuído à experiência.

No fim, talvez uma das maiores conquistas de quem atravessa uma longa recuperação não seja apenas voltar a fazer o que fazia antes, mas aprender a viver de uma maneira diferente: com mais consciência, respeito pelos próprios limites e valorização das coisas que antes pareciam pequenas.

Porque resiliência não é nunca cair. É encontrar, dentro e fora de si, recursos para continuar reconstruindo o caminho.

Sandro César Roberto
Psicanalista — Uma reflexão na luz da Psicologia.



terça-feira, 6 de outubro de 2026

30° Enbra


Hoje, na FIEMT, acontece a coletiva de imprensa e o lançamento oficial do evento, que reunirá profissionais, estudantes, especialistas e importantes nomes da Administração brasileira.
O encontro será realizado nos dias 11, 12 e 13 de novembro de 2026, em Cuiabá-MT, promovendo conhecimento, integração, inovação e debates sobre os caminhos da Administração no Brasil.
Um momento importante para Mato Grosso e para todos que acreditam na força da gestão, do conhecimento e do desenvolvimento profissional.

Sandro César Roberto 

" ECONOMIA DO NORDESTE QUE NINGUÉM PÕE NO CARTÃO"


A ECONOMIA DO NORDESTE QUE NINGUÉM PÕE NO CARTÃO POSTAL

O Nordeste vende sol. Vende mar verde, coqueiro torto, acarajé na panela, forró até o chão. A economia oficial é essa: 60% do PIB de muitas cidades litorâneas vem do turismo, do serviço, da diária do hotel, do passeio de buggy.

Mas tem outra economia. Mais antiga. Mais barata. Mais lucrativa.

É a economia da miséria ancestral.

É a menina que você vê na beira da praia de Pipa, de Porto de Galinhas, de Jericoacoara, de Morro de São Paulo. Ela tem 13, 14 anos. O nome dela tanto faz - pode ser Maria, pode ser Kauane. Ela não está ali porque quer. Ela está ali porque a mãe dela também esteve, e a avó dela serviu na casa grande. É uma linhagem de fome que nunca quebrou.

O que o turista de fora compra não é só a praia. É a sensação de poder. Com 50 euros, 100 dólares, ele compra o que no país dele daria cadeia perpétua. Ele compra a desigualdade. Ele compra o sorriso subserviente de um país que aprendeu que precisa agradar o gringo para comer.

E o sistema deixa.

Deixa porque o prefeito precisa da taxa de ocupação dos hotéis.
Deixa porque o dono da pousada faz vista grossa.
Deixa porque o policial ganha para não ver.
Deixa porque a família, esmagada por 400 anos de seca, de latifúndio, de Bolsa Família que não paga o botijão, aprendeu a chamar isso de "ajuda" e "oportunidade".

Chamam de turismo sexual. É um eufemismo nojento para esconder o nome certo: estupro colonial com pagamento em moeda estrangeira. Exploração sexual infantil organizada pela pobreza.

Enquanto o Brasil vende a imagem da morena sensual, sorridente, disponível, a conta fecha assim:

O gringo leva a foto com pôr do sol.
O intermediário leva 70%.
A menina fica com o trauma, uma infecção e R$ 50 para comprar o arroz da casa.

Essa é a economia mais rentável do Nordeste. Não precisa de investimento do BNB, não precisa de inovação, não precisa de irrigação. Precisa só de miséria contínua e de omissão contínua.

Não existe turismo inocente onde criança é mercadoria na praia. Se a sua viagem precisa da miséria dela para ser barata, você não é turista. Você é parte da cadeia produtiva.

O Nordeste não precisa de turista que vem caçar menina. Precisa de indústria, de universidade, de saneamento, de emprego que pague mais que uma diária para deitar com um estrangeiro.

Enquanto a gente romantizar a "moça do Nordeste" como produto exótico, quente e barato, a gente vai continuar sendo o bordel mais bonito do mundo.

Sandro César Roberto 

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Euphoria !

Euforia: quando a emoção nos impulsiona — e quando pode nos levar ao excesso?

A euforia faz parte da experiência humana. Ela aparece quando sentimos uma alegria intensa, uma conquista, uma vitória ou uma expectativa muito positiva. Pode acontecer no futebol, na política, diante de um emprego novo, de uma promoção, de um relacionamento ou de qualquer situação que desperte grande entusiasmo.

Na luz da Psicanálise, não precisamos enxergar a euforia como algo positivo ou negativo em si. Precisamos observar o que fazemos com ela e até onde ela nos leva.

Entre seus benefícios, a euforia pode aumentar a disposição, a criatividade, a motivação, a esperança e a capacidade de enfrentar desafios. Uma vitória pode renovar nossas forças. Um emprego novo pode despertar confiança. Uma conquista política pode trazer esperança de mudança.

Mas existe também o outro lado.

Quando a emoção se torna intensa demais, podemos perder temporariamente a capacidade de avaliar a realidade com equilíbrio. No futebol, a paixão pode transformar comemoração em provocação e rivalidade em agressividade. Na política, o entusiasmo pode fazer com que uma pessoa idealize excessivamente um líder ou grupo e deixe de enxergar seus erros. No trabalho, a empolgação inicial pode criar expectativas irreais e levar a decisões precipitadas.

Existe ainda um fenômeno importante: quanto maior a expectativa criada pela euforia, maior pode ser a frustração quando a realidade não corresponde ao que imaginávamos.

A Psicanálise nos convida justamente a olhar para aquilo que existe por trás da emoção.

O que estou realmente comemorando? O que essa conquista representa para mim? Por que preciso tanto que isso dê certo? O que acontece comigo quando a euforia passa?

Talvez a questão não seja controlar a euforia, mas não permitir que ela nos controle.

A emoção pode ser combustível para a vida. Porém, quando o entusiasmo elimina a reflexão, podemos confundir desejo com realidade, esperança com certeza e paixão com verdade.

Sentir intensamente faz parte da vida. Pensar sobre aquilo que sentimos é uma forma de não sermos escravos das nossas próprias emoções.

— Sandro César Roberto 





quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Quando o Personagem Continua Depois do Palco


Quando Cristo deixa o roteiro: a Psicanálise explica por que alguns papéis transformam quem os interpreta

Há personagens que rendem fama. Outros rendem prêmios. Mas existem aqueles que atravessam o ego e alcançam regiões da psique que o próprio ator desconhecia.

Interpretar Jesus Cristo talvez seja o maior deles.

Na Psicanálise, compreendemos que o ser humano não interpreta apenas um personagem; ele estabelece com ele um processo de identificação. O ator empresta seu corpo, sua voz e suas emoções, mas também entrega, ainda que inconscientemente, partes de sua própria história. Quanto mais intensa essa identificação, maior a possibilidade de o papel produzir efeitos que ultrapassam o set de filmagem.

Cristo não é um personagem comum. Ele representa um dos símbolos mais poderosos da humanidade. Amor incondicional, sofrimento, compaixão, renúncia, injustiça, perdão e entrega absoluta convivem em uma única figura. Permanecer meses mergulhado nesse universo emocional significa submeter a própria mente a um processo contínuo de reflexão e confronto interno.

Freud demonstrou que o inconsciente continua trabalhando mesmo quando acreditamos estar apenas representando. Jung compreendeu a figura de Cristo como um arquétipo de transformação, capaz de mobilizar conteúdos profundos da personalidade. Lacan mostrou que o sujeito é constituído pelos símbolos que o atravessam. Sob essa perspectiva, representar Cristo não é simplesmente atuar; é permitir que um símbolo universal dialogue com a própria identidade.

Não surpreende, portanto, que alguns atores tenham relatado mudanças importantes após essa experiência.

Robert Powell carregou durante décadas a imagem de Cristo diante do público. Sua interpretação foi tão marcante que muitos espectadores passaram a associar sua própria identidade ao personagem. O papel tornou-se maior que o ator.

Jim Caviezel relatou que a experiência modificou profundamente sua vida. Além das exigências físicas e emocionais das filmagens, afirmou que passou a enxergar sua missão artística e pessoal de outra maneira, mesmo diante de dificuldades em sua carreira.

Jonathan Roumie descreve que interpretar Jesus fortaleceu sua espiritualidade e redefiniu suas prioridades, levando-o a compreender sua profissão como um serviço, e não apenas como entretenimento.

Cada história é única. A Psicanálise não afirma que interpretar Cristo transforma inevitavelmente uma pessoa. O que ela sugere é que experiências de intensa carga simbólica podem reorganizar o modo como alguém percebe a si mesmo, seus valores e seu propósito.

Mas essa reflexão não pertence apenas aos atores.

Todos nós desempenhamos papéis diariamente: pai, mãe, líder, funcionário, empresário, professor, terapeuta, amigo. Com o tempo, esses papéis também moldam nossa identidade. Repetimos comportamentos, assumimos responsabilidades e, muitas vezes, esquecemos onde termina a função e começa quem realmente somos.

É exatamente aí que nasce uma das maiores crises da vida adulta: viver tanto tempo representando aquilo que o mundo espera, que deixamos de ouvir aquilo que nossa própria consciência deseja.

Talvez seja por isso que a história desses atores desperte tanto interesse. Ela nos obriga a fazer uma pergunta incômoda:

Se um personagem foi capaz de transformar quem o interpretou, o que os papéis que representamos todos os dias estão fazendo conosco?

Talvez o maior palco nunca tenha sido o cinema.

Talvez seja a própria vida.

E talvez a mudança mais profunda não aconteça quando interpretamos Cristo, mas quando percebemos que, fora das câmeras, também somos chamados diariamente a escolher entre o ego, a máscara e a autenticidade.

Sandro César Roberto
Psicanalista – CNP 09/0628

Solidão!

A SOLIDÃO QUE ABATE NO FIM DE SEMANA Existe uma solidão que não aparece na segunda-feira. Ela espera o sábado. Durante a semana ...