A história de Gerson, o “Vaqueirinho”, não é apenas a tragédia de um jovem que invadiu a jaula de uma leoa. É o retrato doloroso de um país que ainda não aprendeu a cuidar dos seus filhos mais vulneráveis. Um menino arrancado de casa na infância, empurrado de abrigo em abrigo, medicalizado, sem família, sem referência, sem afeto — e que, apesar de tudo, carregava dentro de si um sonho estranho, mas profundamente humano: ser amado por algo poderoso o suficiente para não abandoná-lo.
Seu fascínio pelos leões pode ser lido como metáfora psicanalítica: o desejo de tocar o que é indomável, talvez porque dentro dele também havia um caos que ninguém conseguiu domar. Para muitos especialistas, o gesto extremo de entrar no recinto pode não ter sido apenas impulso — mas um pedido silencioso de pertencimento, um grito que nunca encontrou ouvidos.
E então, quando a tragédia acontece, o que vemos?
Uma multidão que não chora.
Que não questiona.
Que não acolhe.
Mas aponta o dedo. Ri. Diz “bem feito”.
Como se a morte de um jovem abandonado desde a infância fosse motivo de satisfação.
Essa reação coletiva diz menos sobre Gerson e mais sobre nós. A psicanálise nos lembra que a crueldade pública é sempre sintoma de um vazio interno. Quando uma sociedade perde a capacidade de sentir o sofrimento do outro, ela se desconecta de sua própria humanidade. A empatia, que deveria ser instinto básico, vai sendo corroída por anos de desigualdade, cansaço emocional, violência cotidiana e a falsa sensação de poder que as redes sociais oferecem.
A perda da compaixão transforma a dor alheia em entretenimento.
Transforma vítimas em culpados.
E transforma cidadãos em espectadores frios, que consomem tragédias sem refletir sobre suas causas.
Esse distanciamento afetivo cria uma sociedade adoecida, ansiosa, incapaz de se reconhecer como um coletivo. Onde não há empatia, também não há comunidade. Onde não há acolhimento, surgem mais crianças como Gerson — soltas no mundo, invisíveis, buscando em fantasias o amor que a realidade lhes negou.
O caso do Vaqueirinho deveria ser um espelho: ele não caiu sozinho na jaula dos leões. Ele foi lançado ali por uma vida inteira de ausência, negligência e desamparo social. Sua história nos pergunta, com brutal franqueza:
Em que momento deixamos de sentir? Em que momento nos tornamos espectadores da dor sem nenhuma responsabilidade por ela?
Talvez o desafio do nosso tempo seja justamente recuperar o que estamos perdendo: a bondade simples, o cuidado espontâneo, a coragem de olhar para o sofrimento do outro sem julgá-lo. Porque, sem isso, não são só indivíduos que morrem — é a própria capacidade humana de ser humana.
Sandro César Roberto