sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Compulsão e Frigidez


Compulsão sexual e frigidez entre casais: fatores e consequências na luz da psicologia

A vida íntima de um casal é um espaço onde necessidades emocionais, expectativas e vulnerabilidades se encontram. Quando surge a compulsão sexual ou, no extremo oposto, a frigidez, essas diferenças podem gerar conflitos profundos, afetando não apenas o relacionamento, mas também a autoestima e a saúde mental de cada parceiro.

A compulsão sexual se caracteriza pela busca constante e descontrolada por atividade sexual, muitas vezes usada como fuga emocional. Fatores como ansiedade, baixa autoestima, histórico de abandono, traumas emocionais ou até modelos distorcidos de afeto aprendidos na infância podem alimentar esse comportamento. A pessoa passa a confundir conexão com descarga, desejo com validação, e sexo se torna um anestésico temporário para dores psíquicas não enfrentadas.

Já a frigidez — ou a redução significativa do desejo e da resposta sexual — pode nascer de causas múltiplas: desgaste emocional, estresse, depressão, inseguranças sobre o corpo, conflitos mal resolvidos no relacionamento, traumas antigos ou até mesmo a rotina desgastada que sufoca o afeto. Quando o corpo e a mente se desconectam, o prazer deixa de ser natural e passa a ser uma cobrança silenciosa.

Esses dois polos podem coexistir dentro de uma mesma relação. Um parceiro busca sexo para aliviar angústias; o outro se fecha por se sentir pressionado, insuficiente ou emocionalmente distante. Surge um ciclo: quanto mais um exige, mais o outro se retrai — e quanto mais o outro se retrai, mais o primeiro intensifica sua compulsão. Nesse ponto, o sexo deixa de ser linguagem de afeto e vira campo de batalha emocional.

As consequências psicológicas costumam ser profundas: sentimento de inadequação, culpa, frustração, afastamento físico e emocional, e a crença de que o relacionamento está “falhando”. Em casos mais graves, surgem comportamentos de autoexigência extrema, isolamento ou até busca externa de validação afetiva.

Na perspectiva terapêutica, é fundamental compreender que ambos os extremos são sintomas, e não defeitos pessoais. A cura começa com diálogo seguro, acolhimento das vulnerabilidades e, quando necessário, acompanhamento psicológico. O objetivo é restaurar a conexão emocional, fortalecer a comunicação e devolver ao casal a possibilidade de viver uma sexualidade saudável, respeitosa e integrada.

O corpo fala, mas a mente grita. E quando o casal aprende a ouvir ambos, o vínculo se reconstrói com maturidade e verdade.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

O Menino que Sonhava com Leões — e a Sociedade que Esqueceu de Ser Humana


A história de Gerson, o “Vaqueirinho”, não é apenas a tragédia de um jovem que invadiu a jaula de uma leoa. É o retrato doloroso de um país que ainda não aprendeu a cuidar dos seus filhos mais vulneráveis. Um menino arrancado de casa na infância, empurrado de abrigo em abrigo, medicalizado, sem família, sem referência, sem afeto — e que, apesar de tudo, carregava dentro de si um sonho estranho, mas profundamente humano: ser amado por algo poderoso o suficiente para não abandoná-lo.

Seu fascínio pelos leões pode ser lido como metáfora psicanalítica: o desejo de tocar o que é indomável, talvez porque dentro dele também havia um caos que ninguém conseguiu domar. Para muitos especialistas, o gesto extremo de entrar no recinto pode não ter sido apenas impulso — mas um pedido silencioso de pertencimento, um grito que nunca encontrou ouvidos.

E então, quando a tragédia acontece, o que vemos?
Uma multidão que não chora.
Que não questiona.
Que não acolhe.

Mas aponta o dedo. Ri. Diz “bem feito”.
Como se a morte de um jovem abandonado desde a infância fosse motivo de satisfação.

Essa reação coletiva diz menos sobre Gerson e mais sobre nós. A psicanálise nos lembra que a crueldade pública é sempre sintoma de um vazio interno. Quando uma sociedade perde a capacidade de sentir o sofrimento do outro, ela se desconecta de sua própria humanidade. A empatia, que deveria ser instinto básico, vai sendo corroída por anos de desigualdade, cansaço emocional, violência cotidiana e a falsa sensação de poder que as redes sociais oferecem.

A perda da compaixão transforma a dor alheia em entretenimento.
Transforma vítimas em culpados.
E transforma cidadãos em espectadores frios, que consomem tragédias sem refletir sobre suas causas.

Esse distanciamento afetivo cria uma sociedade adoecida, ansiosa, incapaz de se reconhecer como um coletivo. Onde não há empatia, também não há comunidade. Onde não há acolhimento, surgem mais crianças como Gerson — soltas no mundo, invisíveis, buscando em fantasias o amor que a realidade lhes negou.

O caso do Vaqueirinho deveria ser um espelho: ele não caiu sozinho na jaula dos leões. Ele foi lançado ali por uma vida inteira de ausência, negligência e desamparo social. Sua história nos pergunta, com brutal franqueza:
Em que momento deixamos de sentir? Em que momento nos tornamos espectadores da dor sem nenhuma responsabilidade por ela?

Talvez o desafio do nosso tempo seja justamente recuperar o que estamos perdendo: a bondade simples, o cuidado espontâneo, a coragem de olhar para o sofrimento do outro sem julgá-lo. Porque, sem isso, não são só indivíduos que morrem — é a própria capacidade humana de ser humana.

Sandro César Roberto 


quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Juntos Somos mais Fortes


A psicanálise se torna uma aliada essencial na luta contra o abuso infantil.
Quando uma criança é ferida, não é apenas o corpo que sofre — é a alma, é o silêncio que grita. Nesse cenário, a escuta psicanalítica surge como ponte, como resgate, como caminho para devolver voz, dignidade e futuro a quem teve a infância violada.

Na batalha diária contra essa violência, a união entre a Polícia Civil e a ALMT fortalece a rede de proteção, garantindo que investigação, acolhimento e políticas públicas caminhem juntas. Cada profissional, cada agente, cada psicólogo e psicanalista se torna parte de um só propósito: proteger quem ainda não sabe se proteger.

A psicanálise acolhe, a Polícia Civil combate, a ALMT estrutura e garante avanços.
E quando esses pilares se unem, nasce uma força que não permite retrocesso.
Uma força que enfrenta o abuso, rompe o silêncio e reafirma:
nenhuma criança ficará sozinha.

Seguimos juntos — pela verdade, pela justiça, pela cura e pela infância que merece ser livre, segura e respeitada.

Sandro César Roberto 

domingo, 16 de novembro de 2025

Rambos do Brasil


Rambo, a Dor Invisível e os “Rambos” da Vida Real no Brasil

O início de Rambo: Programado para Matar nunca foi sobre explosões ou heroísmo. É sobre um homem quebrado.
John Rambo surge como um veterano abandonado pelo mundo, vagando sem rumo, carregando traumas que ninguém enxerga. Busca apenas um rosto amigo, um pouco de compreensão, um lugar onde sua dor possa existir sem ser julgada. Encontra solidão, rejeição e hostilidade.

Rambo escancara uma verdade que preferimos ignorar:
existe sofrimento que anda ao nosso lado, e ainda assim passamos direto, fingindo não ver.

Ele representa todos aqueles que tentam sobreviver à própria mente enquanto o mundo exige força, frieza e silêncio.
E quando o xerife o aborda com desprezo, a violência ali não é só física — é social, emocional, psicológica.
É o recado cru:
“Sua dor não tem espaço aqui.”

E é aqui que a ficção se mistura com nossa realidade.

Quantos Rambos existem hoje no Brasil?

Quando olhamos para as nossas forças de segurança, a pergunta se torna urgente.
Quantos policiais, agentes, militares e servidores públicos estão vivendo o mesmo colapso silencioso?
Homens e mulheres que enfrentam violência todos os dias, carregam traumas, lidam com extremos… e ainda assim não têm o básico: apoio emocional e psicológico.

Eles são exigidos como máquinas, mas sofrem como humanos.
A guerra termina no expediente — mas continua na cabeça.

A expectativa social é brutal:
seja forte, seja duro, não desmorone, não sinta.
Só que por trás da farda existe alguém tentando manter uma família, lidar com perdas, sobreviver à pressão e à falta de estrutura.
Alguém que não tem licença para fraquejar — nem no trabalho, nem em casa.

E isso cobra um preço devastador.

Sem acolhimento, sem terapia, sem preparo emocional, muitos desses profissionais vivem em estado permanente de batalha interna. E o mais trágico é que muitos pedem ajuda apenas com o silêncio… e ninguém escuta.

Precisamos falar sobre isso. Urgente.

Cuidar desses profissionais não é luxo; é necessidade.
A saúde mental deles não é detalhe; é fundamento.
Ignorar isso é perder vidas — às vezes lentamente, às vezes de uma vez.

Rambo, lá atrás em 1982, já mostrava o que acontece quando a sociedade se recusa a enxergar a dor de um guerreiro.
Hoje, no Brasil, não podemos cometer o mesmo erro.

Porque no fim, a questão é simples e brutal:
quantos vamos perder antes de entender que quem protege também precisa ser protegido?

Sandro César Roberto 

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

PET!


Benefícios Psicológicos e Psicanalíticos da Interação com Animais em Pacientes Neurológicos

A presença de animais em contextos terapêuticos tem se mostrado um importante recurso complementar no cuidado de pacientes neurológicos. Cães, cavalos, gatos e até animais de fazenda vêm sendo incorporados em programas de reabilitação física e emocional, produzindo efeitos notáveis tanto na recuperação motora quanto na esfera psíquica do sujeito.

Do ponto de vista psicológico, o contato com o animal desperta sentimentos de afeto, empatia e segurança. Pacientes que frequentemente se sentem isolados, limitados por suas condições neurológicas, passam a experienciar um vínculo vivo e responsivo. O toque, o olhar e o cuidado com o animal estimulam a liberação de ocitocina e serotonina, hormônios ligados ao bem-estar, reduzindo a ansiedade, a depressão e o estresse.

Na psicanálise, essa relação ultrapassa o campo fisiológico: o animal ocupa um lugar simbólico, funcionando como um espelho afetivo que não julga, não exige coerência verbal e aceita o sujeito em sua condição de fragilidade. Através do vínculo com o animal, o paciente pode projetar sentimentos, medos e afetos reprimidos, encontrando uma forma de expressão emocional não verbal que muitas vezes antecede ou complementa a fala.

Em pacientes com lesões neurológicas, doenças degenerativas (como Parkinson ou Alzheimer) ou condições como autismo e paralisia cerebral, o animal pode tornar-se um mediador terapêutico. No caso da equinoterapia, por exemplo, o cavalo proporciona estímulos motores tridimensionais que favorecem o equilíbrio, a coordenação e o tônus muscular. Já a cão-terapia atua mais diretamente nas dimensões afetivas e sociais, reforçando o sentimento de pertencimento e autoestima.

Além disso, o pet assume um papel simbólico fundamental na reconstrução da subjetividade. Ele representa o cuidado, a escuta silenciosa e a presença constante — aspectos muitas vezes carentes em ambientes hospitalares ou de reabilitação. A relação afetiva com o animal reintroduz no paciente o sentimento de ser olhado e reconhecido, algo essencial para a restauração da identidade e do desejo de viver.

Em síntese, o uso terapêutico de animais não é apenas um recurso auxiliar, mas um instrumento de reintegração emocional e simbólica. Na união entre corpo, afeto e inconsciente, o animal torna-se um elo entre o humano e o vital, despertando no paciente neurológico algo que a psicanálise valoriza profundamente: a possibilidade de reencontrar o sentido do laço e da vida.

Sandro César Roberto 

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Masculino/Feminino

O Adolescente e a Repulsa pela Própria Feminilidade

Na contemporaneidade, observa-se um fenômeno crescente: adolescentes do sexo masculino manifestando traços femininos — na fala, na postura, na sensibilidade e até na forma de expressão emocional — e, paradoxalmente, demonstrando repulsa, vergonha ou até hostilidade diante dessas mesmas características.

Esse conflito interno nasce da colisão entre dois mundos psíquicos. De um lado, a sociedade moderna, que flexibiliza papéis de gênero e valoriza a liberdade de expressão. Do outro, um inconsciente coletivo ainda preso a arquétipos rígidos de masculinidade — o guerreiro, o dominador, o invulnerável.

Quando o jovem, em processo de formação de identidade, expressa aspectos da anima (a parte feminina da psique descrita por Jung), ele toca zonas de vulnerabilidade e afeto que a cultura masculina costuma reprimir. O desconforto, então, não vem apenas da aparência ou do gesto, mas da sensação de “traição” ao ideal masculino internalizado desde a infância.

A repulsa é, na verdade, um mecanismo de defesa — uma forma inconsciente de tentar recalcar aquilo que desperta medo: a perda da referência identitária e o julgamento social. Ao rejeitar o feminino em si, o adolescente busca reafirmar a masculinidade idealizada, mas acaba se distanciando da própria autenticidade emocional.

O trabalho terapêutico deve focar na integração: compreender que os polos masculino e feminino coexistem em todos os seres humanos, e que o equilíbrio entre força e sensibilidade é o verdadeiro sinal de maturidade psíquica. Somente quando o adolescente aceita suas nuances, ele deixa de lutar contra si mesmo e começa, enfim, a se tornar inteiro.

Sandro César Roberto 

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Entre o amor e a espada


🕋 REALIDADE CRUEL — O AMOR SOB A ESPADA

Em algumas nações onde a fé dita a lei, o simples ato de amar pode custar a vida.
Homens são perseguidos, torturados e, muitas vezes, decapitados em praças públicas, diante de multidões que aplaudem como se o sangue limpasse o pecado.
Outros são apedrejados, enforcados ou lançados do alto de edifícios — e tudo isso em nome de Deus.

O crime?
Amar alguém do mesmo sexo.
Desejar o que o dogma não permite.
Ser o que a tradição insiste em apagar.

A fé que deveria acolher se torna lâmina; o altar, cadafalso.
E o silêncio do mundo é ensurdecedor.
Enquanto corpos tombam, governos se calam, e o medo se perpetua nos becos e nas almas.

Esses homens e mulheres vivem o terror de existir entre duas mortes:
a física, que os regimes impõem;
e a psíquica, que nasce da vergonha, do ódio introjetado e da culpa que corrói o ser.

Na lente da psicanálise, o que vemos é um ego despedaçado — o sujeito aprisionado entre o desejo e o superego social que o condena.
Ele aprende a odiar a si mesmo para tentar sobreviver num ambiente que o nega.
Mas o recalque coletivo sempre cobra seu preço: violência, repressão e sofrimento que se repetem de geração em geração.

A verdadeira doença não está no desejo —
está na sociedade que precisa destruir o outro para silenciar o próprio medo.

E talvez um dia, quando o amor deixar de ser sentença e voltar a ser milagre,
a fé volte a cumprir seu papel original: salvar, não matar.

Sandro César Roberto 

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Mudanças

Quando a profissão muda a pessoa: um olhar da Psicanálise É comum observarmos que algumas pessoas mudam significativamente após ...