É perturbador perceber como a moda contemporânea flerta com o obscuro, transformando em estética o que foi símbolo de dor e opressão. Da idolatria velada aos uniformes militares nazistas à recente apropriação das listras dos prisioneiros dos campos de concentração, a indústria parece testar os limites da memória e da ética. O que antes marcava a desumanização, hoje é desfilado com glamour e ignorância histórica. Falta discernimento, empatia e, sobretudo, consciência. Quando a vaidade supera a lembrança do sofrimento humano, a moda deixa de ser expressão e passa a ser provocação vazia — um espelho frio da nossa superficialidade coletiva.
Avaliação psicanalítica:
Sob a ótica psicanalítica, a moda contemporânea revela uma busca inconsciente por poder e pertencimento. A repetição de símbolos ligados à dor e à dominação não é acaso, mas um retorno do reprimido: a tentativa de reencenar, de forma estetizada, aquilo que a humanidade não elaborou plenamente — a culpa e o trauma da barbárie. O consumo de imagens ligadas ao sofrimento é uma forma de negar a própria fragilidade, projetando força onde houve horror. A moda, assim, torna-se sintoma: uma linguagem inconsciente que expressa a negação do luto coletivo e o fascínio do ego pela dominação e pela estética do poder.
Sandro César Roberto
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